E se extraterrestres existirem? Como é que fica a fé cristã?

"Com o lançamento do filme de Steven Spielberg, O Dia da Revelação, a narrativa de Hollywood parecia querer abalar as…"

Publicado por José Santos

a 23 de Junho, 2026

Com o lançamento do filme de Steven Spielberg, O Dia da Revelação, a narrativa de Hollywood parecia querer abalar as fundações do Cristianismo. A ideia era simples: “O que temos para revelar vai destruir a fé de muita gente.”

Só que não.

A fé cristã não sai beliscada. Desculpa, Hollywood.

É preciso alguma arrogância para pensar que um filme de ficção científica sobre extraterrestres, misturando dados reais, especulação e fantasia, possa abalar as sólidas fundações da teologia cristã.

A ideia também não é nova. Não nasceu com este filme. Hollywood já tentou várias versões deste argumento, incluindo em Prometheus, da série Alien. A fórmula é quase sempre a mesma: aparece uma descoberta cósmica, surgem seres inteligentes vindos de fora da Terra, e de repente a fé cristã entra em colapso como se nunca tivesse pensado seriamente sobre Deus, criação, humanidade, finitude e eternidade.

No filme de Spielberg, esta tensão é apresentada através de figuras religiosas que veem a sua fé supostamente abalada. Parafraseando uma das personagens: “Toda a nossa vida nos foi dito para acreditar num ser supremo, mas agora que os seres supremos estão entre nós, as pessoas não vão conseguir lidar com esta ideia.”

O problema é que esta frase revela precisamente a fragilidade da narrativa.

O conceito de “Ser Supremo” que parece alimentar este argumento está profundamente desalinhado com aquilo que a fé cristã realmente afirma. Quando os cristãos dizem que Deus é o Ser Supremo, não estão a dizer que Deus é simplesmente o ser mais inteligente, mais antigo, mais avançado ou mais poderoso dentro do universo. Deus não é o topo da cadeia cósmica. Não é uma criatura mais evoluída. Não é um extraterrestre com mais tecnologia.

Deus é o Criador de tudo o que existe.

Tudo o que existe no universo, visível ou invisível, conhecido ou desconhecido, pertence à ordem da criação. Portanto, se de facto houver extraterrestres, eles não seriam “seres supremos” no sentido cristão. Seriam criaturas. Poderiam ser mais inteligentes do que nós, mais antigos do que nós, mais avançados tecnologicamente do que nós, talvez até mais impressionantes em vários aspetos. Mas continuariam a ser seres criados.

Eles não se criaram a si próprios. Não seriam a explicação última da realidade. Não seriam Deus.

E isto em nada afeta a verdade da existência de Deus ou os fundamentos da fé cristã.

Outra ideia recorrente, e igualmente frágil, é a de que a vastidão do universo seria um problema para a fé. A pergunta costuma aparecer assim: “Se o universo é tão imenso, com tantas galáxias, estrelas e planetas, como é que ainda podemos acreditar que Deus fez isto tudo para nós?”

Como se a grandeza da criação fosse um embaraço para o Criador.

O filme parece assumir que a vastidão do universo tornaria inevitável a existência de outras formas de vida inteligente e que isso colocaria em causa a centralidade do ser humano na fé cristã. Também parece sugerir que um universo tão vasto seria um desperdício de espaço se existíssemos apenas nós.

Mas esta objeção diz mais sobre a nossa mentalidade limitada do que sobre Deus.

A perspetiva cristã nunca dependeu da ideia de que o universo tem de ser pequeno para que o ser humano tenha valor. Nem depende da ideia de que Deus só pode amar a humanidade se não tiver criado mais nada de grandioso. A grandeza do universo não diminui Deus. Pelo contrário, evidencia a sua majestade.

Deus não está limitado ao nosso espaço, ao nosso tempo, à nossa escala ou à nossa imaginação. A vastidão do cosmos não é um problema teológico. É uma janela aberta para a grandeza da criação.

Aliás, se houver vida inteligente noutros planetas, isso não diminuirá a fé cristã. Apenas mostrará que a criação é maior do que imaginávamos.

E aqui entra uma terceira ideia do filme, curiosamente a mais sensata. Uma personagem, confrontada com a possibilidade de outros seres inteligentes, em vez de perder a fé, chega a uma conclusão simples e admirável: afinal, a criação é muito maior do que ela imaginava, e isso não muda quem Deus é.

Nada mais normal.

Essa é, provavelmente, a reação mais natural de uma fé minimamente madura. Nova informação sobre a criação não destrói automaticamente a fé no Criador. Pode obrigar-nos a pensar melhor, a fazer novas perguntas, a abandonar certas suposições culturais ou religiosas mal formuladas. Mas isso é muito diferente de dizer que a fé cristã fica destruída.

A menos, claro, que o argumentista queira insinuar que uma conclusão simples é necessariamente ingénua.

Mas nem todas as conclusões simples são simplistas. Algumas são apenas verdadeiras.

O que impressiona neste tipo de narrativa é a pobreza dos conflitos religiosos que são apresentados como profundos. Estas “crises de fé” de laboratório, fabricadas para dar peso filosófico ao enredo, parecem muitas vezes escritas por quem não conhece a fé cristã por dentro, nem compreende verdadeiramente os momentos reais de luta, dúvida e provação que uma pessoa de fé pode enfrentar.

Não é que os cristãos não tenham crises. Têm.

Não é que a fé cristã não seja confrontada por perguntas difíceis. É.

Mas a possibilidade de existirem extraterrestres não é uma dessas perguntas devastadoras. Pelo menos não nos termos em que Hollywood gosta de a apresentar.

O argumento é demasiado fraco. A premissa é demasiado superficial. E a tentativa de transformar criaturas extraterrestres em “seres supremos” é, no mínimo, contraditória.

Portanto, este ângulo de marketing, vendido como o grande momento de “abalo da fé”, acabou por ser criticado por cristãos e não cristãos. E com razão. Parece haver em Hollywood um grupo de pessoas convencido de que a fé cristã é tão frágil que pode cair aos pés de qualquer revelação sobre a própria criação de Deus.

Mas não pode.

Isto soa mais a uma jogada de marketing para provocar fricção, polémica e conversa pública do que a uma reflexão séria sobre Deus, humanidade e universo. E não seria a primeira vez que esse expediente é usado para vender mais bilhetes.

Se houver outros seres inteligentes noutros planetas, isso não muda nada de essencial para um cristão. Não contradiz a existência de Deus. Não destrói a doutrina da criação. Não nega a dignidade humana. Não desmonta o Evangelho. Não torna Cristo irrelevante. Não transforma criaturas em deuses.

No máximo, obriga-nos a reconhecer que a criação pode ser maior, mais vasta e mais surpreendente do que imaginávamos.

E, sinceramente, isso não enfraquece a fé cristã.

Apenas mostra que a fé cristã continua a ser uma visão de mundo racional, relevante e fundamentada na realidade e bem mais resistente do que certas objeções modernas parecem presumir.

Autor José Santos

Designer de formação, Empresário por força das circunstâncias e Teólogo autodidata por paixão.

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